Homenagem ao líder político do povo tupi-guarani o cacique e pajé Samuel Bento Awa Djedjokó falecido em 2011 na praia de Boraceia SP

Cacique e pajé Samuel Bento Awa Djedjokó político do povo tupi-guarani na Mata Atlântica(Foto: Carlos Valim/Folha do Litoral Norte/1988)

Cacique e pajé Samuel Bento Awa Djedjokó líder político do povo tupi-guarani na Mata Atlântica(Foto: Carlos Valim/Folha do Litoral Norte/1988)

“Meu pai foi embora. Agora não está mais entre nós. Não está mais comigo. Não vai ter mais ele para orientar. Para rezar. Toda noite. Não vou ouvir mais ele cantar para ñanderu. Mas vai estar no meu coração”. Papa, emocionado, despediu-se de seu pai e foi se refazer com sua esposa, Cristine Takuá, e seu filho, Mirim Dju. Lua cheia, silêncio na aldeia, apenas o som dos cantos e do violino entoando se destacam do zumbido da mata.

Após a noite intensa de um longo ritual fúnebre, foi enterrado na segunda-feira, 12 de dezembro, no ancestral cemitério indígena próximo ao belo rio Silveira, o corpo do cacique e pajé Samuel Bento Awa Djedjokó. Ele morreu na noite de 9 para 10 de dezembro, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC). Djedjokó sofria de diabetes e pressão alta e chegou a ir ao hospital da cidade de Barras do Sul-Araquari, em Santa Catarina, Aldeia da Conquista, onde foi medicado. Voltando para a aldeia onde estava hospedado, ele não resistiu ao tratamento e faleceu durante a madrugada. Seu corpo foi então transladado para a terra onde vivia, no litoral de São Paulo.

Djedjokó estava a passeio em Santa Catarina junto de sua esposa Doralice Kunhã Tatá, onde mora parte de sua família, mas vivia no litoral paulista, na terra indígena Ribeirão Silveira, em Bertioga. Por décadas, ele foi uma das principais lideranças indígenas do povo tupi-guarani em São Paulo, lutando pela demarcação de terras no litoral paulista. Ele reivindicava a identidade do povo indígena tupi-guarani, e convivia, na terra indígena, com a etnia guarani mbya, a qual pertence sua esposa.

Em Bertioga, a grande disputa territorial se deu contra a família dona da rede de supermercados Peralta, que queria transformar a área onde os índios viviam em um condomínio. Recentemente, após pressão liderada por Djedjokó, houve a ampliação do território, que havia sido demarcado nos anos 1980 sob pressão e com medidas judiciais para proteger os direitos indígenas, mesmo sem contar com a ajuda da Funai, que na época dizia não haver índios no litoral do estado de São Paulo. Hoje, a área tem cerca de 8.500 hectares, e abarca parte do parque estadual da Serra do Mar.

Nascido em 9 de janeiro de 1937, o líder político e espiritual também celebrava nessa mesma data uma tradicional cerimônia de batismo, momento em que as crianças nascidas ao longo do ano ganham o nome pela visão do pajé. Ano passado, acompanhei um outro ritual, o “batismo da erva-mate”, regido por Djedjokó.

Durante o funeral, que reuniu diversas lideranças guarani e tupi do Estado de São Paulo, Carlos Fernandes Guarani, ou Papá Mirim Poty, como é chamado por seu povo, um dos filhos de Dejdjokó, fez o seguinte depoimento, no qual transmite a beleza e a lucidez da visão de mundo que aprendeu com seu pai:

“Meu pai muitas coisas me falou em termos de organização. E quando ele fazia o batismo, dia 9 de janeiro, toda vez que ele acabava de fazer o ritual, dizia assim: vai se preparando que um dia eu não vou continuar fazendo isso. Quando esse dia chegar, quero que vocês tenham muita força e alegria. Porque o mundo hoje está muito difícil de suportar. As doenças que existem, eu não sei de onde vêm essas doenças. E além da doença, os políticos, que não querem saber da existência dos nativos. Os políticos não entendem o nosso modo de viver. O nosso modo de ser é viver em harmonia com todos os seres humanos.

Ele dizia assim: nós não sabemos negociar terra, porque sabemos que a terra é de um dono só. Esse dono só deu para todo mundo viver. Desfrutar dela. Sem destruir. O dono, que é o pai da natureza, do mundo, nosso pai criador, ele deixou um paraíso para todos nós, seres humanos. Para cuidarmos do nosso paraíso. E isso não era para ser vendido, não era para ser negociado. Também não é para ser tirado de quem deseja viver. Então, essas coisas, ele me passou.

Nós não temos esse pensamento que nos temos que vender a terra, ou brigar pela terra. Isso a gente não tem. Então, meu pai foi embora. Agora não está mais entre nós. Não está mais comigo. Não vai ter mais ele para orientar. Para rezar. Toda noite. Não vou ouvir mais ele cantar para ñanderu. Mas vai estar no meu coração. Por isso que o ser humano tem que pensar: para que ser político e pisar em cima das pessoas que precisam da terra? Pra que manipular as plantas para ganhar em cima das pessoas que precisam ser curadas. Nós não queremos isso.

Vou deixar um canto que toda vez que ele fazia o batismo para dar o nome para nossos filhos, netos. Ele cantava essa música. Não é uma música, é o nosso jeito não tem uma tradução em português. Não sei me expressar. Ele dizia que não tem um nome para isso, mas, se quiser dar um nome, dizia assim: a expressão do coração do sagrado”.

E Papa cantou a linda música. Após cantar, continuou:

“Força! Viva Tupi-Guarani! Assim a gente vai sobrevivendo. Não importa o que acontecer. Nós estamos aqui sempre e forte. Nós acreditamos que um dia de felicidade, um dia sem dor, virá. E nós, seres humanos, estamos aqui para presenciar todas as coisas que vierem. E mesmo assim nós temos que ter força e coragem para poder encarar o nosso mundo. Então, povo, você que é povo, vamos lutar! Pelo mesmo ideal. Pela mesma liberdade. Pelos nossos direitos. Nos respeitem, e assim nós respeitamos vocês.

Nós demos todo o mundo. Oferecemos o melhor. Quando os portugueses chegaram, a gente teve hospitalidade, oferecemos hospitalidade. Maior carinho. É isso que a gente queria. Queremos o respeito. E assim, respeitaremos vocês. Em nome do Awa Djedjokó, que é meu pai e não esta mais aqui entre nós.

Meu pai, descanse em paz. Hoje você está no outro mundo. No mundo que Ñanderu preparou para você. Com certeza vai dar força para nos todos, e vai estar sempre junto da gente, lutando com os mesmos ideais. Embora haja dor e sofrimento a luta continua! E seguiremos caminhando, sonhando e acreditando que é possível mudar!!!
Assim é nossa Filosofia!
Assim é nosso modo de ser!
Assim aprendi com meu pai, grande Awá Djedjokó!
E assim seguirei rezando, cantando e me comunicando com Tupã e os seres sagrados da floresta, em busca de equilíbrio com todas as formas de vida, com todos os irmãos e irmãs dessa Terra, independente de sua raça, cor, pensamento…
Assim foi ensinado por Ñanderu e Ñandexy desde os princípios…
E assim me ensinou meu Pai!
E a ti agradeço e sigo suas pegadas…”

Foto do jornalista Carlos Valim feita em 1988 na Tribo Guarani do Rio Silveira em Boraceia quando pela primeira vez os índios se vestiram a caráter para nossa matéria na Folha do Litoral Norte(o primeiro jornal impresso de São Sebastião que completara em outubro 30 anos de sucesso na região)

Carlos Valim

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